quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Capítulo 8

-Acorda Aline, hoje é domingo!Escola Dominical!
Aline abriu os olhos, com a dificuldade de sempre. Estava ainda com tanto sono, que preferiria mesmo é ficar em casa, dormindo. Mas não podia fazer isso. Era o único dia que tinha para se dedicar a Deus e à igreja, e não poderia abrir mão disso. Sentou-se na cama, bocejando e se espreguiçando. Karina estava ali, na frente do espelho, se maquiando e se arrumando exageradamente, como costumava sempre fazer.
-O despertador não tocou?- perguntou Aline, ainda sentada na cama.
-Tocou, mas você não ouviu.
-Acho que tenho trabalhado demais.
-Eu também acho. Será que já não está na hora de parar um pouco?Papai já está conseguindo se restabelecer.
-Eu sei, mas acho que ainda não é hora de parar. Ele ainda não está com condições de pagar minhas mensalidades do colégio.
-Isso é. Mas você só tem mais esse ano na escola.
-É, mas depois tem a faculdade. Se papai não se reerguer totalmente até lá, terei que continuar trabalhando para pagar meus estudos.
-Acho que não será necessário. Não ouviu ele dizendo que em pouco tempo conseguirá liquidar toda a dívida?
-É eu ouvi.
-Que bom, porque eu não agüento mais viver nessa vida. Tudo é limitado, não sobra dinheiro pra nada e a gente fica nessa agonia.
-Mas pelo menos não temos passado fome, Karina.Devemos agradecer a Deus porque tem cuidado de nós.
-Eu sei...
-Então...De repente Ele está querendo nos ensinar alguma coisa com toda essa situação.
-Será?
-Claro!Diante dessa situação toda eu aprendi muitas coisas, inclusive a depender de Deus.
Karina olhou para Aline, incrédula.
-Você pelo jeito não aprendeu nada né?- alfinetou Aline.
Karina não respondeu.Pegou o secador e começou a escovar o cabelo.Aline olhou para a irmã, sem acreditar no que via.
-Pra que tudo isso Karina?Vamos à Escola Dominical, não a uma festa!
-E daí?Gosto de estar apresentável em qualquer ocasião.
Aline meneou a cabeça negativamente.
-E você deveria fazer o mesmo, Aline.Poderia se preocupar ao menos em arrumar esse cabelo, está um horror sabia?Ah e mudar essas roupas também...
-Cuida da sua vida, Karina!- falou Aline, levantando-se da cama. “Era só o que me faltava...”
Foi ao banheiro, tomou um rápido banho, se arrumou e desceu para tomar o café da manhã.Quando chegou à cozinha, todos já estavam prontos, na sala, esperando-a apenas se aprontar.
-Já tomaram o café?- perguntou Aline, admirada.
-Sim...- respondeu a mãe, enquanto observava a rua, pela janela.
-Poxa, acho que demorei um pouco né...
-Não é culpa sua, filha.Sabemos que está cansada, por isso não acordou mais cedo.- respondeu o pai.
-Pois é, isso já virou rotina.- disse a garota, dirigindo-se à cozinha.Tomou rapidamente o café, voltando em seguida para a sala, onde a família continuava reunida, esperando-a.Entraram no carro, e em poucos minutos chegavam à igreja, que não ficava muito longe da casa onde moravam.Karina dirigiu-se logo ao banheiro, onde queria “checar” o visual. Carlos e Helena entraram na igreja, enquanto Aline ficara na portaria, onde estavam Lucas e Patrícia, um casal de namorados, amigos seus.Lucas era um rapaz de altura média, moreno e bastante sorridente, enquanto Patrícia, sua namorada era uma garota loira, de altura também média e muito simpática.Formavam o casal “sorriso” da igreja.Tinham alguns anos a mais do que Aline, o que fazia a garota considerá-los ótimos conselheiros para si.
-Me atrasei hoje?
-Tecnicamente sim- respondeu Lucas, sorrindo- mas sem problema, afinal parece que ninguém cumpre horário aqui mesmo.
-Pois é...estamos aqui há um tempão e chegaram pouquíssimos jovens.Apenas nós, o Rick, e agora você e a Karina.- falou Patrícia.
-Nem o líder chegou?
-Não...
-Acho que o Douglas anda meio ocupado, já perceberam que ele tem se atrasado bastante ultimamente?
-É, eu percebi.E cadê o Rick?
-Sabe que eu não sei...ele tava aqui agora a pouco- disse Patrícia, olhando a sua volta.
Aline olhou também à sua volta e se deparou com com uma figura conhecida, chegando à porta da igreja.
-Beto?- falou Aline, admirada.
-O quê?-perguntou Lucas.
-O Beto tá vindo ali.
-Ah é...que bom, né?Faz tempo que não o vejo na igreja.
-Parece que está voltando aos braços do Pai.Glória a Deus por isso- disse Patrícia, feliz.
Beto chegou na portaria, e cumprimentou-os, um pouco sem jeito.Olhou para Aline, com um meio sorriso, e entrou à igreja.Aline acompanhou-o com o olhar até que ele sumisse por completo.Lucas e Patrícia se entreolharam, cúmplices do sentimento da garota.
-Vamos entrar?- sugeriu Lucas, sorrindo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Capítulo 7

Karina olhou para Aline.Estava com uma expressão contente no rosto.
-Já viu quem está aqui?- perguntou a garota à irmã, sorridente.
O homem, que estava de costas até então, virou-se lentamente, exibindo um largo sorriso para Aline.
-Papai?!- exclamou Aline, surpresa.Não reconhecera seu próprio pai. “Que mico!” Não costuma vê-lo daquela maneira, vestido descontraidamente, aliás, nem esperava que seu pai aparece assim, de repente.
-Não vai dar um abraço no seu pai?- falou o homem, abrindo os braços.Carlos era um homem alto, branco, de cabelo já meio grisalho e olhos verdes.Karina havia “puxado” pra ele nas características físicas.E até mesmo no gênio.Ambos tinham personalidade forte e eram bem determinados.
Aline atirou-se nos braços do pai, emocionada.
-Papai, que bom que está de volta!Como senti sua falta!- dizia, quase chorando.Carlos não parava de sorrir, se emocionando também por perceber a carência da filha.
-O senhor não iria chegar só no fim de semana?
-Sim, mas consegui antecipar a volta, e aproveitando o ensejo vim fazer-lhes uma surpresa.
A garota continuou abraçada ao pai, que puxou Karina para que viesse unir-se a eles também no abraço.Entraram no carro, satisfeitos.Foram tagarelando durante todo o trajeto para casa; as garotas contando os episódios ocorridos durante a ausência do pai, e o pai relatando suas experiências durante a viagem.A chegada em casa não deixou de ser uma festa.Helena, que fora a primeira a rever Carlos, não deixava de sorrir, mostrando seu contentamento e satisfação por receber de volta à casa o chefe da família.Aline sentia-se feliz.Novamente estavam todos unidos.Depois de tantas dificuldades e adversidades superadas, a família comemorava agora o início da vitória que estava por vir.
-A negociação lá em Boston foi um sucesso!- falava Carlos, contente- Recebi um bom dinheiro, suficiente para pagar uma boa parte da dívida.E acho até que poderemos realizar uns gastos a mais...- falou, sorrindo.
-Ah que bom!Porque eu preciso urgente ir ao salão de beleza- reclamou Karina, quase histericamente- e além disso preciso de umas roupas novas, pai...
-Vamos com calma, mocinha...- ponderou o homem, arregalando levemente os olhos e franzindo a testa, o que era um gesto característico seu.
-Que bom que está de volta, pai- falou Aline, abraçando o pai- e fico feliz por ver que está tudo se resolvendo.Tenho orado muito a esse respeito.
-E Deus tem ouvido suas orações, minha filha.Ele tem me ajudado de forma extraordinária.Em pouco tempo, creio que você não precisará mais trabalhar tanto, pois Deus já está entrando com providência em tudo, e eu logo conseguirei me restabelecer por completo.
Aline sorriu carinhosamente para o pai.Era louvável vê-lo falando daquela forma, ao contrário de antes, quando murmurava constantemente, dizendo que Deus era injusto e não se importava com eles.Aline teve medo até que ele abandonasse a fé diante de tão grande provação.Mas mediante suas orações e as de sua mãe, que era uma genuína intercessora, Deus intervira de maneira gloriosa ao prover o necessário para que a família e a fé de seu pai se reestruturassem.Agora parecia que tudo estava voltando a seu devido lugar.
O clima em casa era envolvente, mas Aline tinha deveres a cumprir.Após matar as saudades do pai, dirigiu-se à livraria, onde ainda teria um dia inteiro de trabalho.O movimento durante a semana não era intenso na loja, mas isso não impedia que Aline chegasse exausta em casa, pois de qualquer forma, os afazeres eram muitos por lá.
Após trabalhar o dia inteiro, a garota chegou em casa, cansada.Tomou um banho, desceu para o jantar coma família, e depois subiu para o quarto, ansiosa por dormir em sua cama.Ao adentrar, viu sua Bíblia no lugar de sempre, na escrivaninha. “Não posso deixar de lê-la.” Estava se esforçando por meditar todos os dias, embora o cansaço e a fadiga tentassem impedir.Abriu a Bíblia e folheou-a.Abriu em Romanos 10.14. “Como pois invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram?E como ouvirão, se não há quem pregue?” Pensou um pouco.Passou a analisar aquele versículo aplicando-o em sua vida.Lembrou-se de Luís, seu chefe.Luís se entitulava “sem religião”.Não curtia igrejas e nem seguia uma crença definida.Simplesmente se informava e guardava para si o que considerava “verdadeiro”.Aline ficaria feliz em poder evangelizá-lo, mesmo sabendo que poderia custar-lhe muita dor-de-cabeça, pois seu chefe era “osso duro de roer”.Enquanto meditava no que havia lido, Karina adentrou ao quarto, animada, tendo em mãos um envelope amarelo.
-O que é isso Karina?
-Isso o quê?
-Esse envelope aí na sua mão.
-Ah... não é nada- falou a garota, tentando esconder o envelope.Aline deu de ombros.Com o cansaço que estava sentindo, não teria ânimo para insistir com a irmã, embora estivesse curiosa.Guardou a Bíblia e deitou-se em sua cama, acomodando-se confortavelmente, como almejara durante todo aquele dia, adormecendo logo em seguida.

sábado, 7 de novembro de 2009

Capítulo 6

-Então quer dizer que o Beto não sabia que você gostava dele?- perguntava Vivian à Aline, enquanto esperavam no pátio o início da primeira aula.
-Não Vivi, ele não sabia.
-Mas os homens são muito bobos mesmo.Tão espertos pra umas coisas e tão ingênuos pra outras!
-Pois é...
-E ele ainda tá namorando com a Elen?
-Não...O namoro não deu certo.
-Humm...Bem que ele poderia voltar pra igreja agora né?Não tem mais quem o segure  no "mundo"...
-É, mas não deve ser fácil pra ele.Lembra quando ele saiu da igreja, o comentário que foi por parte dos irmãos?Ele deve se sentir um pouco envergonhado ainda...
-É, mas deve estar arrependido do que fez.
-Acho que sim.Parece que voltou a ser o mesmo Beto de sempre.Ele estava irreconhecível há alguns meses atrás...
Nesse momento Rick adentrou ao pátio, apressado, quase correndo.Ia passando direto pelas meninas, mas Aline o conteve a tempo.
-Ei, aonde pensa que vai hein?- perguntou a garota, puxando-lhe o braço.
-Ah, oi Aline!- falou o garoto, ofegante- Me desculpe, mas é que estou com muita pressa mesmo, depois a gente se fala.- disse, soltando-se da mão de Aline.
-Não, espera!- disse a garota puxando-lhe de novo o braço- Você anda muito misterioso ultimamente.Quero saber do que se trata tal mistério!
-Nem te conto...- falou o garoto, com uma expressão enigmática estampada no rosto.
Aline olhou para o garoto com um olhar de censura.
-O que você anda aprontando Richard?
-Surprise!Não posso contar senão deixa de ser surpresa...Preciso ir agora, bye!-falou o garoto, soltando-se da insistente mão de Aline e correndo em seguida.
-O que será que ele tá aprontando, amiga?Será que...que ele tá se encontrando com alguma garota?- falou Vivian, temerosa.
-Acho que não- respondeu Aline, pensativa- o Rick não se encontra com garotas às escondidas.Ele é  bem transparente no que faz...
-Ah mas nunca se sabe...E se ele tá querendo privacidade?
-Isso não faz o perfil do Rick.Deve ser outra coisa.E nós vamos descobrir!- disse, olhando resoluta para Vivian.
O sinal tocou, estridente.Aline e Vivian foram para a classe.A professora ainda não havia chegado, mas instantes depois apareceu, tendo o diretor do colégio atrás de si.A classe, que até aquele instante estava agitada, com vozes ecoando por todo o ambiente, se acalmou.A professora anunciou que o diretor entregaria um recado à classe, dando então o espaço para que o mesmo se pronunciasse.O homem "limpou" a garganta, e principiou a falar.
-Caros estudantes, quero vos participar a decisão que a corporação presente nesta instituição escolar determinou para vosso auxílio, visando a fase que enfrentam no momento, que é o início da busca pela escolha de uma carreira, a qual os acompanhará pelo resto de suas vidas.
"Por que ele fala tão difícil?"- pensou Aline.
-Providenciaremos a ida de alguns de vocês às dependências de  uma faculdade da cidade de São Paulo, ajudando-os assim a decidirem-se pelo curso superior pelo qual melhor se identifiquem.Devo ressaltar que não são todos que poderão desfrutar de tal oportunidade, mas somente aqueles que forem selecionados mediante suas notas e desempenho escolar.- o homem parou e observou toda a classe- Alguma pergunta?- falou.
A classe continuou em silêncio.
-Então...é isso.Manteremo-vos informados e em breve distribuiremos as autorizações.Tenham uma boa aula.- finalizou, agradecendo à professora e retirando-se em seguida.
Após a saída do diretor, a classe voltou ao estado inicial, ao agito e inquietação dos momentos anteriores à chegada do mesmo.
-Será que seremos selecionadas?- perguntou Vivian à Aline.
-Provavelmente, pois temos boas notas e nosso desempenho é razoável.
-Tomara que nos escolham, fiquei animada!
-Eu também.
-Você já decidiu que faculdade cursar?
-Ainda não...
-Nem eu.Espero que sejamos mesmo escolhidas, porque assim teremos um "empurrãozinho" para decidirmos o que estudar.
-É...
A realidade é que Aline estava indecisa.Havia tantos cursos que a interessavam!Amava ler e escrever, então poderia cursar Letras.Mas também gostava de analisar pessoas e suas atitudes, podendo assim cursar Psicologia.Sem falar em seu interesse por administração, por enfermagem, farmácia...e outros.Eram tantas as opções!
Chegada a hora de ir embora, Aline caminhou em direção ao portão de saída, acompanhada de Vivian.Iam conversando e rindo alto,comentando os acontecimentos do dia escolar animadamente.Ao atravessarem o portão, Vivian avistou o carro de sua mãe, despediu-se de Aline e correu em direção ao veículo.Aline ia ao lugar que costumava sempre esperar a irmã, do outro lado da rua, quando se deparou com uma cena estranhável.Ali, em sua direção, quase na sua frente, estava Karina, abraçando freneticamente um homem, ao lado de um carro estacionado na frente do colégio.O homem era alto,trajava roupas esportivas, tinha um boné na cabeça e parecia ser bem mais velho que a garota.Aline olhou bem.Estava mesmo vendo aquilo?Quem era aquele homem?E o que sua irmã fazia abraçada a ele?Esfregou os olhos para certificar-se se estava mesmo vendo a cena.Deu um passo, que depois foram seguidos por vários outros, até que chegasse perto do cenário do episódio.
-Karina!-gritou.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Capítulo 5

-Nós tínhamos uma amizade legal- continuou Beto- Nos dávamos tão bem,mas quando comecei a namorar a Elen você se afastou.Tinha alguma coisa contra?
-Não... respondeu Aline, sem saber bem o que dizer.
-Então... Por que se distanciou? Fiz algo que você não gostou?
-Bem, não é isso...- falou a garota, hesitante.O que responderia para Beto?Será que ele realmente não sabia o por quê de seu afastamento?
-Então o que Aline?- insistiu o rapaz.
A garota ficou tensa.Deveria contar a Beto o que verdadeiramente sentia, e confessar que sentiu-se rejeitada ao vê-lo iniciar um namoro com outra, daí o motivo de seu distanciamento?
Beto estava ali, esperando uma resposta.
-Olha...-principiou a garota, meio insegura- vou ser sincera com você.
O rapaz continuou olhando, ansioso por seu pronunciamento.
-A verdade é que eu...eu...- a garota parou, nervosa.Estava suando.Respirou fundo, tomou coragem e disparou:
-É que eu era apaixonada por você, Beto!Fiquei triste quando você começou a namorar, e decidi me afastar, foi isso!
Beto olhou-a, surpreso.Provavelmente não esperava uma resposta tão direta daquela garota que fora sempre tão tímida.Ficou encarando-a por alguns instantes, sem palavras.Aline logo arrependeu-se de sua sinceridade.Abaixou a cabeça, envergonhada.Sentia seu rosto queimando; estava corada como sempre ficava quando se encontrava em momentos constrangedores.
-Eu...eu não sabia disso- falou o garoto, ainda surpreendido.
Aline olhou para Beto.Como ele não sabia?Seu sentimento por ele parecia ser tão transparente!
-Você não sabia?- perguntou sem jeito a menina.
-Não.Bem...quando você se afastou , surgiram comentários de que você havia ficado chateada por causa do meu namoro com a Elen, só que eu não levei a sério.Não imaginei que fosse verdade.
-Mas era...
-Olha Aline, eu não tinha a intenção de magoar você.É sério!Você sabe como aprecio sua amizade...
"Minha amizade, claro!"- pensou a garota- "Ele  me vê simplesmente como uma amiga."
-Você ainda está chateada comigo?
-Não...- respondeu Aline, um tanto decepcionada.
-Então, está tudo bem?Voltamos a ser amigos?- perguntou o garoto, estendendo a mão para a menina.
-Sim, voltamos- respondeu a garota, estendendo-lhe também a mão, sorrindo, fingindo uma alegria que não existia.
-Que bom, Aline.Porque eu odiaria ter que ir embora sem antes ficar bem com você novamente.Estou feliz agora.
-Eu também.- respondeu a garota,triste.
Conversaram por mais alguns instantes.Chegada a hora de ir embora, Beto acompanhou-a até em casa.Foram conversando normalmente pelo caminho, como nos velhos tempos em que eram amigos.Aline esforçou-se por parecer contente durante a conversação, mas a verdade é que estava com o coração partido, desiludida.Ela que pensara por tanto tempo que Beto nutria pelo menos por algum instante algum sentimento a mais por ela, descobria finalmente que ele sempre a vira como uma simples amiga, e que sequer percebera sua paixão.Sentia-se uma tola.
Despediram-se sem mais delongas.Beto se foi, e Aline entrou em casa, desanimada.Àquela hora Helena e Karina já estavam à mesa, jantando.Quando ouviu o barulho de alguém entrando pela porta, Helena dirigiu-se à sala.Parecia aflita.
-Já estava preocupada, Aline.O que aconteceu?
-É que eu estava numa lanchonete lá perto da loja.Por isso demorei.
-Poderia ter avisado que chegaria mais tarde.Com quem estava?
-Desculpe mãe, me esqueci completamente de avisá-la.Prometo que isso não se repetirá.Eu estava com o Beto.
-O Roberto, neto da irmã Marta?
-É...
-Hum...Ouvi dizer que ele vai embora.É verdade?
-Sim.Irá para Minas, morar com os pais- disse Aline, tristemente.
-Sei...- falou a mãe da garota, como se quisesse decifrar algo na expressão da filha.- Vem jantar, Aline, a mesa está posta.
-Não estou com fome, mãe.Eu comi na lanchonete.
-Tudo bem... mas tem certeza que não quer mesmo comer nada?Está cedo ainda, e mais tarde você pode sentir fome...
-Fica tranquila, mãe, se eu sentir fome como alguma coisa depois.- falou a garota, subindo as escadas.
Aline estava exausta.Dirigiu-se ao banheiro, tomou um refrescante banho, que serviu não só para refrigerar seu corpo, mas também sua mente.Foi ao quarto, onde vestiu-se rapidamente, pegando em seguida a escova para pentear os cabelos, em cima da penteadeira.Olhou-se no espelho.Viu o reflexo de uma moça, não mais de uma garotinha.Estava crescendo.Estava aprendendo a viver e a ter responsabilidades em meio a tantos conflitos e adversidades inclusas no "mundo dos adultos".Pois sim, era quase uma adulta.Não era mais aquela menininha ingênua e inocente de outrora.Estava trabalhando e em breve entraria pra faculdade, marcando assim definitivamente sua passagem para a vida adulta.Passou a escova por seus cabelos longos, enquanto fitava seus olhos grandes e escuros, que se destacavam em sua pele branca e delicada.Achou-se bonita.Não chegava aos pés de Karina, mas tinha lá seus encantos.
Largou a escova e moveu-se para sua cama.Ela parecia tão convidativa!Deitou-se no colchão macio, desfrutando do conforto tão desejado naquele dia agitado.Olhou para o relógio.Ele marcava 19:30 horas.Estava cedo para dormir.Viu sua Bíblia em cima da escrivaninha, ao lado de sua cama. "Quando foi a última vez que li minha Bíblia?" Pegou-a.Sentou-se na cama e pôs-se a folheá-la.Abriu-a em Romanos 8.28. "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto." Analisou a passagem. "O que o Senhor quer dizer com isso?Quer dizer que tudo que acontece, mesmo sendo ruim, de alguma forma coopera para o meu bem?Quer dizer que a falência do meu pai e a ida do Beto para longe podem me fazer bem no futuro?" Aline pensou um pouco.Precisava "digerir" o que havia lido.Levantou-se e ajoelhou-se ao pé da cama, dirigindo a Deus uma oração.
"Deus, me perdoe se às vezes não compreendo teus planos para minha vida, e se às vezes reclamo dos meus problemas, sem levar em conta que tudo acontece com permissão Tua.Me ajude a entender melhor teus propósitos para mim.Acalme e dê paz ao meu coração, que nesse momento se encontra tão perturbado.Agora eu sei que há males que vem para o bem, e sei também que não há vitória sem luta.Então vou lutar, e no tempo certo o Senhor me dará a vitória.Transforme minhas adversidades em bençãos, meu Pai.E faça a Tua vontade na minha vida.Amém!"
Aline levantou-se.Estava em paz agora e sentia-se "leve", como se Deus houvesse tirado um fardo de sua vida.Colocou a Bíblia na escrivaninha e deitou-se em sua cama, satisfeita por ter ouvido a voz de Deus.Em pouco tempo adormeceu, num profundo e tranquilo sono.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Capítulo 4

Ali, na frente de Aline, estava Beto, fitando-a com seu jeito calmo e sossegado.Ficaram por alguns instantes se encarando, sem pronunciarem palavra, até que Beto, tomando a iniciativa, quebrou o silêncio.
-Está esperando alguém?
-Não...quero dizer, sim!-respondeu a garota,desconcertada- Estou esperando minha irmã.
-Entendi...falou Beto, sorrindo do embaraço da garota.
Aline abaixou a cabeça, sem jeito.
-Será que poderíamos conversar?
-Bem...- falou a garota um tanto hesitante- É que estou apressada.
-Entendo...à tarde você não teria um tempo livre?
-Estarei trabalhando durante toda a tarde.
-Você está trabalhando?- perguntou o garoto, admirado.
-Sim.
-E você sai muito tarde do trabalho?
-Umas 6 horas...
-Então podemos conversar depois que acabar seu turno?Prometo não tomar muito seu tempo.
-Podemos.
-Então eu passo lá e a gente conversa.
-Tudo bem.
-Então...tchau!- despediu-se, já saindo.
-Espera!Você não sabe onde eu trabalho.
-É verdade...- falou o rapaz, sorrindo- Como pude me esquecer?Onde você trabalha?
-Numa livraria no centro da cidade, perto da praça...
-A livraria do Luís?- perguntou o garoto, interrompendo a garota.
-Sim.Você o conhece?
-Sim.Ele e meu pai eram muito amigos, quando ele ainda morava aqui em São Paulo com a minha mãe.
-Ah, sei...- falou Aline tristemente, lembrando que Beto ia embora.
-Bom...Então nos encontramos às 6-falou o garoto.
-Tudo bem.
-Tchau-disse, já saindo.
-Tchau.
Aline respirou fundo.Toda vez que falava com Beto suas pernas tremiam e seu coração batia mais forte.Era óbvio que seu sentimento  continuava forte pelo garoto, pois só de pensar nele, suas emoções se agitavam de tal forma que ficava difícil se conter.O que será que ele queria lhe falar?Será que havia voltado a gostar dela?Será que ele queria se despedir?Vários pensamentos rondavam sua mente e sua cabeça estava a mil naquele momento, de forma que nem percebera que Karina já havia aparecido e estava ali, na sua frente.
-Ei, Aline!- dizia Karina, sacudindo a irmã- Acorda!Tá sonhando?
-Hã?- falou Aline, despertando.
-Tá no mundo da lua é?
-Ah, é que...Opa, espera aí!Aonde você estava hein?- desconversou- Tô aqui te esperando há um tempão!
-Eu tava conversando com umas amigas...
-E nem se preocupou com o horário né?
-Ai Aline, se você estava tão apressada, porque não foi logo embora?
-Porque eu tenho responsabilidade,Karina.O que a mamãe ia dizer se eu chegasse em casa sem você?
-Eu já sou bem grandinha,Aline!Sei me cuidar, não preciso de você!- disparou Karina, irritada.
Aquelas palavras doeram em Aline.Só o que estava tentando fazer era protegê-la, afinal era sua irmã mais velha, e sentia-se responsável por ela.Mas Karina, na sua sede por independência e na ilusão de que podia fazer o que quisesse sem precisar dar satisfações a ninguém, não entendia isso.
Foram caladas durante todo o percurso para casa, como vinha acontecendo já a muitos dias.Quando chegaram, sua mãe estava falando ao telefone, aparentemente animada e com uma expressão muito alegre no rosto.Aline dirigiu-se à cozinha.A mesa já estava posta, provavelmente a um bom tempo, pois a comida já havia esfriado.A garota colocou a comida no prato e introduziu-a ao microondas.Depois retirou-a e foi se sentar à mesa.Minutos depois Helena entrou na cozinha, sorrindo.
-Tenho ótimas notícias, meninas.
-Mesmo?-perguntou Karina, sentando-se à mesa.
-Sim...Mas antes de dizer qual é a notícia, quero saber por que chegaram tarde em casa.
Aline sorriu.Sabia que sua mãe não deixaria tal fato passar em “branco”.
-Bem mãe...- principiou a garota- É que a Karina ficou conversando com umas amigas depois da aula e esqueceu a hora.Por isso chegamos mais tarde.
-Sei...
-Agora diga,mãe, qual é a boa notícia?- perguntou Karina, curiosa.
O rosto de Helena iluminou-se.Abriu um largo sorriso, mostrando em sua expressão que estava muito feliz.
-Seu pai voltará esse fim de semana.- falou.
-Papai vai chegar? –exclamou Aline.
-Ai que bom!- exclamou em seguida Karina.
-É, parece que a negociação lá foi um sucesso e ele conseguiu antecipar a volta.
-Que saudades do papai!-falou Aline.
-Ah graças a Deus voltarei a andar de carro!Ninguém merece andar de ônibus!- exclamou Karina, aliviada.
O pai das meninas estava no exterior, representando seu patrão em uma viagem de negócios.O homem arrumara esse emprego havia poucos meses, após sua antiga empresa, que estava passando por dificuldades, falir.Depois deste episódio, a família passara por severas provações, tendo que depender da igreja e dos parentes para suprirem suas necessidades básicas.Conseguiram manter apenas a casa e o carro, precisando se desfazerem de vários outros bens para pagarem parte das dívidas que a falida empresa havia lhes rendido, além de precisarem imediatamente “baixar” o nível e qualidade de vida que tinham até então.Mediante a situação difícil, Aline conseguira empregar-se na pequena livraria do centro da cidade, onde não ganhava muito, mas o suficiente para manter sua vaga no colégio, enquanto seu pai conseguira um bom emprego em uma grande empresa do país, no qual o salário lhe permitia pagar a vaga de Karina na escola, e manter razoavelmente a família, visto que grande parte do dinheiro que ganhava era usado para pagar suas dívidas.
Após o almoço, Aline dirigiu-se à loja, onde passou a tarde inteira ansiosa pelo término de seu turno.Trabalhava inquieta, e até mesmo distraída, de forma que  Luís ou Henrique precisavam chamar-lhe a atenção por diversas vezes.As horas passaram-se lentamente para a garota, como se fossem uma eternidade.Quando enfim chegou a hora marcada para o encontro, Aline despediu-se dos colegas de trabalho e ficou do lado de fora da loja, à espera de Beto.Ele ainda não havia chegado.Aline ficou agitada, olhando sempre para o lado e para o outro, à procura do amado.Poucos minutos depois, o garoto aparecia, correndo apressado.
-Demorei?- perguntou, ofegante.
-Um pouco.Você está atrasado exatamente...- disse, olhando para o relógio- 3 minutos.
-Não é tanto...- disse o garoto, sorrindo.
“Mas parece uma eternidade quando se trata de esperar por você”- pensou a garota.
-Aonde conversaremos?- perguntou.
-Você se importa de irmos a uma lanchonete, ou você está com pressa?
-Não estou apressada.
-Então vamos.
Os dois dirigiram-se a uma lanchonete próxima.Sentaram-se à mesa e fizeram seus pedidos à atendente.
-Bem...principiou Beto- nem sei por onde começar...
Aline sorriu timidamente.
Beto tornou-se sério.Encarou firmemente a garota e principiou:
-Por que se afastou de mim, Aline?
Aline olhou surpresa para o garoto. “Por que me afastei de você Beto?”

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Capítulo 3

Aline não parava de pensar no episódio do dia anterior e em como Fernando a tratara tão friamente.Logo ele, que era sempre tão simpático e gentil...Estava inconformada com a atitude do rapaz, e ainda não conseguira chegar a uma conclusão sobre o que poderia ter causado a sua reação.
-Poxa, mas ele nem ao menos deu um sorriso?- perguntou Vivian à Aline, quando esta lhe contara o caso, enquanto lanchavam no lugar de sempre, no refeitório da escola.
-Nem isso, Vivi... Me tratou como se não me conhecesse.
-Que estranho...Tem certeza que era mesmo o Fernando?
-Claro!O vi poucas vezes, mas gravei direitinho aqueles na minha mente aqueles olhos primorosos que ele tem.
-E quem não gravaria?Aqueles olhos são de matar!-exclamou Vivian.
Aline sorriu do comentário da amiga.Realmente, os olhos de Fernando eram "de matar".Aliás, não só os olhos, mas ele, em um todo, era encantador.A garota olhou para o lado, ainda sorrindo, e avistou Rick, saindo da cantina, tendo um mixto-quente em mãos, vindo na direção delas.
-Olha lá quem vem vindo- cochichou para Vivian- Esse também é de matar!
Vivian olhou, lançando em seguida um sorrisinho para Aline.
-Olá garotas!-cumprimentou Rick, se aproximando.
-Oi!- responderam as duas ao mesmo tempo.
-Posso me sentar?- perguntou o garoto, já sentando-se.
-Já sentou!- respondeu Aline, sorrindo.
-Tenho novidade!- falou o garoto, dando uma mordida em seu mixto-quente.
-Mesmo?Conta... - pediu Aline.
-Meu irmão chega dos Estados Unidos mês que vem.
-É mesmo?- indagou Vivian, interessando-se- Qual o nome do seu irmão?
-Johnny.
-E como ele é?
-Ah...Parecido comigo.Alto, branco, cabelo preto...- respondeu Rick, estranhando o interesse de Vivian.
Aline fitou a amiga, rindo-se.Ela sabia exatamente o que Vivian estava tentando fazer: enciumar o Rick.Só que aparentemente não havia obtido êxito, pois o garoto não deu a mínima.
-Ele vai vir morar no Brasil?- voltou a perguntar Vivian.
-Não.Só virá passar as férias.
-Ele mora com seu pai?- indagou Aline.
-Mora.
-Quantos anos ele tem?- perguntou Vivian.
-20.
Aline e Vivian entreolharam-se.
-Já terminaram o interrogatório?- indaou Rick, mordendo em seguida o último pedaço de seu lanche.
-Já!- responderam as duas juntas.
-Então preciso me retirar- falou levantando-se- Tenho assuntos importantes a tratar.Bye!
Rick mal havia se levantado e o sinal tocou, anunciando o término do intervalo.
-Ah não!Já terminou o intervalo!- falou, decepcionado.
-E que assuntos tão importantes são esses que você tem a tratar, hein?- perguntou Aline, curiosa.
-Você logo vai saber...- falou o garoto, piscando para a menina e se retirando logo em seguida.
Vivian fixou o olhar na amiga, enquanto esta observava Rick saindo.A garota observava Aline como se estive querendo ler algo em sua mente.
-O que foi, Vivi?-perguntou Aline, percebendo o olhar fixo da amiga.
-Só você não percebe, Aline.Ele tá caidinho por você!
-Lá vem você com essa história de novo...
-É sério,Aline.Presta atenção!Você não viu a piscadela que ele te deu?
-Nada a ver!Aquilo não foi nada de mais...
-Você que pensa...
Aline sabia que seria inútil tentar convencer a amiga de que Richard não estava interessado nela.Quando Vivian colocava uma idéia na cabeça, só Deus poderia tirá-la.
Voltaram para a classe, onde permaneceriam ainda por mais duas horas.As duas últimas aulas eram de literatura,a  matéria preferida de Aline, que aliás, passaram voando para a garota.
Ao fim das aulas, como de costume, Aline foi esperar Karina em frenteao portão do colégio.Rick e Vivian já haviam ido embora, e a maioria dos alunos também.Só restavam ela e umas poucas pessoas que permaneciam ali.A garota estava impaciente.Já eram 12:15 e nada de Karina aparecer.Será que deveria ir embora?Não poderia demorar;tinha horário para ir trabalhar.Sentou-se na calçada, decidida a esperar a irmã. "Só vou esperar mais 5 minutos"-pensou- "Passando disso, vou embora". Ficou ali alguns instantes.Estava preocupada.Karina não era de demorar tanto assim.Será que acontecera alguma coisa com a irmã?
Pouco tempo depois, sentiu que alguém se aproximava por trás.A pessoa firmou a mão em seu ombro, e ela, confiante de que se tratava de sua irmã, levantou-se, virando com todo ímpeto pronta para dar uma bronca na irmã.
-Até que enfim!Onde você estav...
Aline ficou imóvel, olhando pasmada para a pessoa que estava à sua frente.
-Ah...é você- falou, sem jeito.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Capítulo 2

-E aí, Vivi, o que você ia me dizer na hora em que a professora nos interrompeu?
Vivian fitou Aline, séria, enquanto mordiscava o sanduíche que tinha em mãos.Estavam sentadas à mesa, no canto esquerdo do refeitório, onde costumavam ficar todos os dias.Aline olhava para a amiga atentamente, esperando resposta, enquanto saboreava um cachorro-quente.
-Bem - principiou meio sem jeito a garota- estávamos falando do Rick, lembra?
Aline balançou a cabeça afirmativamente.
-Sabe...Eu acho que o Rick não pode gostar de mim, porque ele gosta de outra pessoa.
-Outra pessoa?- perguntou Aline, curiosa- Quem?
Vivian relutou em responder, mas disse finalmente:
-De você!
Aline encarou espantada a amiga.Em seguida, deu uma gargalhada.
-Você acha mesmo que o Richard gosta de mim?
-Acho.Já percebeu como ele te olha, como te trata e tudo mais?
-Como uma amiga, oras...Ele me olha e me trata como uma amiga!
-Não seja ingênua, Aline!Desde que ele chegou aqui só tem tido olhos para você.Eu percebi isso.
-Você tá delirando, Vivian...Eu que queria ter um gato daqueles de olho em mim.
-Mas você tem, Aline- disse Vivian, melancolicamente.
-Deixa disso, amiga.Você está enganada.E mesmo se estivesse certa, eu é que não ia querer me envolver com o garoto que a minha melhor amiga gosta.
-Eu sei disso...
-Mas...mudando de assunto.Me conta, o que o Fernando tava fazendo aqui na frente da escola?Ele estuda aqui?
-Não...mas ele mora aqui perto.
-Entendi...Você conversou muito com ele?
-Só trocamos umas poucas palavras.
-Será que ele ficará frequentando nossa igreja?
-Tomara.Nossa igreja etsá precisando de caras novas.Já enjoei de todas!
Aline sorriu.Em parte, concordava com Vivian.Frequentava a igreja no Jardim Maia já há 6 anos, e durante esse tempo poucas pessoas que chegaram haviam permanecido na congregação.
-É verdade...a igreja está precisando de caras novas- falou, pensativa - poderíamos inventar alguma coisa para atrairmos novos jovens.
-Como assim?
-Evangelizando, organizando eventos para a comunidade , sei lá...
-Quem deveria pensar nisso era o Douglas.Ele é o líder.
-Mas poderíamos dar a sugestão.
-Pode ser... - falou Vivian, sem muito entusiasmo.
-E se a gente falar com ele?
-Fala...Quem sabe ele não se interessa?
Aline passou a considerar a idéia.A verdade é que a garota amava o trabalho de evangelismo, e lamentava o fato de não haver um grupo na igreja que se dedicasse a tal trabalho.Se eles se dessem conta do quão necessário era o resgate das almas para Cristo!
Após o término da aula, Aline correu para casa, onde almoçou rapidamente e em seguida saiu para trabalhar.A livraria onde trabalhava ficava no centro da cidade, a 15 minutos de sua casa.Era uma pequena livraria ainda, e contava apenas com 2 funcionários, além de Luís, seu chefe.Ao chegar à loja, percebeu que Luís estava sozinho no balcão, onde conferia uma lista de livros que haviam chegado aquela manhã.
-Ah, que bom que você chegou, Aline- disse Luís, ao ver a garota entrando na loja- Preciso que organize os novos livros que chegaram.Henrique não veio, e eu não tive tempo ainda de organizá-los.
-Tudo bem.- falou Aline.
-Vou almoçar agora.Depois de organizar os novos livros, vá lá no estoque e reponha os livros que faltam lá na estante, ok?
-Ok.
-Ah, e fique de olho se chegar algum cliente.- disse, já saindo da loja.
-Pode deixar.
Aline olhou os livros, todos empacotados, em cima do balcão.Desempacotou-os e os separou por categoria.Havia livros de romance, ficção, aventura, auto-ajuda e muitos outros.A garota aventurava-se observando as capas, os títulos, e descrição de cada um deles.Amava livros.Gostava de trabalhar em uma livraria, pois assim ligava o dever ao lazer, executando seu trabalho e divertindo-se ao mesmo tempo.Depois de separar os livros e organizá-los na prateleira, foi até o estoque e apanhou os que estavam faltando lá na estante.Colocou-os cada um em seu lugar.Ao terminar, percebeu que as estantes estavam precisando de um asseio.Pegou o espanador e pôs-se a retirar o pó das prateleiras.A esse tempo, entrou uma cliente na loja.A mulher começou a observar os livros localizados na seção de auto-ajuda.
-Precisa de ajuda, senhora?-perguntou Aline, aproximando-se.
-Sim, eu gostaria- respondeu a mulher, abrindo um sorriso um pouco forçado- será que você não poderia me indicar um bom livro de auto-ajuda?
"A Bíblia"-pensou Aline.
-Bom, há vários aqui- falou a garota, apontando para a prateleira- mas preciso saber sobre que assunto especificamente a senhora se interessa.
A mulher pensou um pouco.Parecia aflita.Era jovem ainda, e possuía um aspecto sereno, apesar de aparentar ser uma pessoa sofrida.
-Bem...pode ser sobre auto-estima.
Aline observou a estante.Pegou um livro e estendeu-o à mulher.
-Este livro é muito bom.Ajuda a cultivar a auto-estima e diz aqui- disse olhando para o livro- que treina a emoção para ser feliz.
-Obrigado- falou a mulher, examinando o livro- Vou levá-lo.
Aline conduziu a mulher ao caixa.Registrou a compra no computador, colocou o livro em uma sacola e entregou-o à cliente, recebendo em seguida o pagamento.A mulher agradeceu e foi embora."Bem que o Luís poderia incluir literatura evangélica aqui na livraria.Um livro de aconselhamento cristão poderia ajudar muito mais a essas pobres almas angustiadas"- pensou, enquanto observava  a mulher saindo da loja.Nesse mometo, Luís chegou, apressado.
-Demorei muito, né? Acabei esquecendo a hora.
-Percebi...- disse Aline, sorrindo.
-Já fez o que pedi?
-Sim.Organizei os livros novos e coloquei os que estavam faltando lá na prateleira.
-Ok.Se quiser ir tomar um ar, tem 15 minutos.
-Posso mesmo?- perguntou a garota, admirada.
-Claro.
-Obrigada!
Aline ficou surpresa, pois Luís era sempre tão exigente no trabalho e nunca dava descanso para ela, principalmente em um dia que Henrique não estivesse.Dirigiu-se à uma praça.Sentou no banco, observando os pombos que passeavam e brincavam à beira do chafariz.Olhou em volta e viu pessoas andando pra lá e pra cá, apressadas, enquanto outras paravam, sentando-se nos bancos e pondo-se a observarem o movimento.Havia garotos engraxates abordando pessoas ,tentando assim suprir suas necessidades através do humilde ganha-pão.Olhou para o lado e viu um grupo de adolescentes, rindo e falando em voz alta."Esse ambiente é perfeito para um trabalho de evangelismo"- pensou.Ficou assim,alguns instantes a observar a cena.Olhou para o relógio.Era hora de voltar ao trabalho.Pôs-se a andar em direção à loja; não podia se atrasar, pois Luís não tolerava atrasos.Caminhando a passos largos e rápidos, em poucos minutos chegou à loja.Ao entrar se deparou com uma grande quantidade de clientes, uns passeando pela loja,observando as prateleiras, e outros já faziam fila no caixa, para realizarem o pagamento.Luís estava sobrecarregado, esforçando-se por atendê-los o mais rápido que pudesse.Aline correu ao balcão, apossando-se do caixa vazio, para que os outros clientes se achegassem, diminuindo assim o trabalho de Luís.A garota atendeu uma mulher, depois um homem, e chegando ao terceiro cliente, percebeu que se tratava de uma pessoa que lhe era familiar.O rapaz era alto, tinha a pele clara, cabelos castanhos e olhos azuis. "Fernando por aqui?"-pensou.
-Olá!- exclamou a garota, abrindo um largo sorriso para o rapaz.
O rapaz a olhou como se não a conhecesse. -"Oi." - respondeu secamente.E terminado o processo de pagamento, saiu, sem sequer olhar para a garota.Aline ficou decepcionada."Será que eu fiz algo que ele não gostou?"- pensou preocupada.